Clarice Lispector

...estou procurando, estou procurando.
Estou tentando me entender.
Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem,
mas não quero ficar com o que vivi.
Não sei o que fazer do que vivi,
tenho medo dessa desorganização profunda.


*-*


Não entendo.
Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O dom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doída.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez emquando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais:
mas pelo menos entender que não entendo.

*-*

... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de.
Apesar de, se deve comer.
Apesar de, se deve amar.
Apesar de, se deve morrer.
Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente.
 Foi o apesar de que me deu uma angústia que
insatisfeita foi a criadora de minha própria vida.
Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você
enquanto você esperava um táxi.
E desde logo desejando você,
esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero.
 Mas quero inteira, com a alma também.
 Por isso, não faz mal que você não venha, espararei quanto tempo for preciso.


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